"Há tantos anos me perdi de vista que hesito em procurar me encontrar. Estou com medo de começar. Existir me dá às vezes tal taquicardia. Eu tenho tanto medo de ser eu. Sou tão perigoso. Me deram um nome e me alienaram de mim." - Clarice Lispector.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Chegue na hora marcada!


Não vale a pena.
O quê? Ser passional. Simplesmente isso.
Por quê? Porque chega um momento em que você não pode mais idealizar as pessoas, porque você sabe que não pode mais. A idade vai chegando, as pessoas ao seu redor esperam que você seja mais responsável, menos idealista, mais sério, menos risonho... Enfim, essas coisas que são "exigidas" de nós depois que passamos dos 15 anos.
E sabe do que mais? Eu não estou preparada pra isso. Poxa, eu quero sentir, eu quero viver, eu quero perceber que eu estou viva! Mas eu sei que isso não vale a pena. Não como eu quero, não como eu imagino.
Por isso não vale a pena ser passional: nada do que você quer pode acontecer como você quer, nem na velocidade que você quer. Por isso eu digo que não vale a pena, que eu acho uma merda isso, e que eu preciso parar de ser assim.
Hoje eu mandei que meus sentimentos se danassem e que eu seguiria em frente. Alguém me disse que eu não devo fazer isso e que, em contrapartida, deveria lutar pelos meus sentimentos. Eu devo lutar sozinha por algo que quero que seja pra duas pessoas?
"Quem ama sozinho, não ama a si mesmo ". Acho que isso faz muito sentido quando se ama "platonicamente". Infelizmente, e como sempre, é o meu caso.
Acho que eu tenho uma tendência a me apaixonar por uma pessoa sem que ela goste de mim. E por isso mesmo, acho que será muito estranho se algum dia eu me apaixonar por alguém e esse alguém se apaixonar por mim em troca. Acho que não vou acreditar, porque mesmo agora, eu não acredito nisso. Eu não acredito que alguém possa se apaixonar por mim simplesmente porque isso nunca aconteceu.
Será que vai acontecer?
Eu me pergunto isso sempre. E sempre me vem a mesma resposta: nunca. Sei que isso é fatalista, que é exagero da minha parte... Mas o que eu posso fazer se é o que eu estou sentindo?!
Não sei... Eu tenho que parar com isso. E .
~*~
Música:
"Amor, meu grande amor" - Barão Vermelho.
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sábado, 26 de março de 2011

Caixa vazia

Ela olhou pra tudo o que já fizera em sua vida. Não era muito. Claro, não vivera muito. Quase nada, por sinal.
O que ela poderia dizer que conhecia? a vida dos poetas? Não. A vida e a obra de filósofos como Platão, Aristóteles, Schopenhauer? Não. Livros? Não.
Então, que diabos ela conhecia? Nada. Você pode, então, perguntar se o que ela conhecia melhor não era a vida ao invés da teoria, dos conhecimentos científicos, das grandes mentes da História. Não. Nem isso. E aí você pode entender realmente que ela não conhecia absolutamente nada. Mas ninguém é totalmente inútil! Ninguém pode ser tão abstraído do mundo assim! O que sobra pra ela? Isso nem ela sabia.
A essa altura, ela já folheava pela décima quinta vez os livros que já lera, tentando encontrar o conteúdo deles em si. Não havia nada.
Ora, veja você, uma constatação dessas não acontece e é simplesmente engavetada no armário de memórias. Ela chorou. Sofreu. Pensou até em...
Mas por quê? Por que sentia-se - e era - tão vazia?
Refletiu por um certo tempo. É certo que as teorias que estudara não ficaram gravadas em seu cérebro como a unha na carne, mas algo de tudo aquilo ela absorvera, porque ela conseguira, de seu jeito torto e sútil (quase invisível), ajudar, nem que por muito pouco, algumas pessoas. Será que seria essa sua missão?
Talvez fosse. Quem saberia? Somente a vida poderia lhe responder - e se assim quisesse.
~*~
Música:
"Preciso dizer que te amo" - Cazuza & Bebel.
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terça-feira, 8 de março de 2011

O Campo


Deitada sobre a grama úmida de sereno de um imenso campo estava ela. E apreciava o amanhecer como uma criança o faria. Os raios de sol, quentes, tocavam-na pouco a pouco. Eram suaves, intensos, amigáveis, encantadores.
Ela olhava as nuvens, que passavam lentamente no céu. Pareciam flocos de algodão doce. Algumas formas podiam ser distinguidas, como um botão de rosa, uma bola, um cachorro poodle deformado, uma forma humana deitada, assim como estava ela... Essas formas a faziam pensar, e por fim, rir.
Estava perto de uma árvore. Uma enorme mangueira, onde antes ela havia feito sua barraca de acampamento na noite anterior. Planejara tudo havia três semanas. Esta árvore fora escolhida a dedo dentre as tantas outras que existiam neste campo.
Ela ouvia um canto de um pássaro. Um canto diferente, mas bonito, suave, calmo, inocente. Não conhecia aquele pássaro, mas deveria ser belo. Pássaros com cantos como o que ouvia não poderiam ser feios.
Uma brisa suave passava por ela. Cada pêlo de seu corpo se arrepiava ao toque dessa brisa, que era doce e levemente fria.
O sol já nascia por completo. Outros sons começavam a acordar junto com o sol. Sons dos pássaros que passavam voando, sons da fazenda que havia ali por perto. Os sons que seu coração tanto pedira durante muito tempo.
Resolveu levantar-se e caminhar um pouco pela paisagem que escolhera. Sentia seus pés úmidos e frios por causa do contato com a grama. Sentia também a brisa, agora mais forte por causa de seu caminhar, balançar-lhe os cabelos. Via cada árvore e observava cada particularidade como uma criança que está vendo o mundo pela primeira vez. E seus olhos transpareciam esse sentimento, essa alegria que ela tinha por estar naquele campo e naquele lindo dia.
Não seria ótimo que aquele dia nunca acabasse? Seu coração pedia, desejava isso.
Ela parou embaixo de uma laranjeira e sentou-se no chão. Fechou seus olhos e começou a pensar em tudo o que ela deixara para trás, tudo o que ela queria tentar esquecer indo a este local: família, não por ser casada, mas os parentes mais próximos. Ela há muito não os via porque certo dia haviam brigado, e desde então não mais se falaram. E também os amigos, os quais ela amava, mas não sabia se eram realmente seus amigos, se a amavam tanto quanto ela os amava; enfim, se eles eram tão verdadeiros, tão transparentes quanto ela. Sentiu que já não era tão inocente quanto antes, não confiava tanto nas pessoas quanto antes... E isso ela considerava ruim.
Ela abriu os olhos, e com este movimento uma lágrima farta e sincera rolou deles. Não queria ter esses pensamentos. A família deveria ser a chave de sua paz, e seus amigos, alicerces de sua alegria. Mas... Talvez ela estivesse ali justamente para achar de novo a chave de seu coração e o alicerce de suas pernas.
Limpou seus olhos, antes embebidos em lágrimas, e levantou-se. Voltou a caminhar. Agora um caminhar mais preocupado e pesado do que antes. Foi até a casa da fazenda que ali estava. A fazenda era dela; com uma carreira profissional como a que tinha, era possível que ela se desse o luxo de algumas regalias. Era tão enorme quanto vazia, preenchida de espaços vazios nos sofás, nos quartos... O preço do "sucesso" é a solidão, dizia para si.
Entrou e sentou-se à mesa da cozinha. Viu que havia uma folha de papel lá e apoderou-se de uma caneta.
Escreveu o quão era inútil sua existência. Um viver em prol do sucesso profissional e pessoal, os quais nunca encontrou. Disse que era uma pessoa infeliz, pois perdera toda sua inocência para com as pessoas, e isso era ruim, porque todos merecem votos de confiança. Escreveu também que fora para lá a fim de entender o porquê dela estar vivendo daquele jeito louco, em função do dinheiro e, infelizmente, não achara uma razão nobre para isso; que fora também para entender porque não se dera bem com seus familiares por toda sua vida, e porque não confiava mais cegamente em seus amigos como antes. E percebeu que fora adulterada pelas pessoas ao seu redor, pela sua vida louca, influenciada por fatores externos. Não via mais saída a não ser...
Parou de escrever neste ponto. Fez um enorme esforço para não chorar e, por fim, jogou o papel e a caneta para longe. Irrompeu pela porta da cozinha, em direção ao campo.
Após correr um pouco, encontrou um riacho, o qual ela sabia que levava a uma cachoeira. Resolveu nadar naquele riacho. Pôs os pés e viu que a água estava fria, mas não desconfortável para nadar. Então ela entrou no riacho e deitou-se, boiando na água e deixando a correnteza levá-la.
Ela olhava para o céu. As nuvens se moviam mais rápido do que antes. Seria porque ela estava também em movimento? Ou era ela que queria que as nuvens se movessem mais rapidamente?
O som da água em seus ouvidos era suave, e de certa forma, reconfortante.
Pássaros voavam com sua organização em "v" costumeira. Uma forte tristeza bateu em seu coração; ela fechou os olhos e deixou-se levar pela correnteza. Como sempre fiz, pensou, por fim.

Mariana Rodrigues Costa,
8 de julho de 2009,
Quarta-feira.


~*~
Música:
"Scarborough Fair" - Celtic Woman.

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